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© o escrivão

cada momento é um lugar onde nunca estivemos.

© o escrivão

cada momento é um lugar onde nunca estivemos.

26.02.21

Mil Caras

 

(conto #12)

preciso de dizer-te quem ela é, começa a enfermeira, mas ele retorque: ela disse-me. aquela exclamação sobre os códigos não me passou despercebida. confrontaste-a? pergunta a enfermeira. sim, responde o amigo. precisamos dela e ela de nós, diz irritado. desculpa colocar-te nestas situações, murmura a enfermeira. estou aqui para te proteger, seja do que for, afirma enquanto lhe dá um beijo na testa. não vou ter dificuldade em comprar-lhe documentos falsos no mercado negro. para o secretário fui pelos nossos meios pois, supostamente, ele era um de nós. diz sossegando-a. estou a colocar-te numa posição em que estás a dever favores, começa a enfermeira. não, de todo! interrompe-a. tenho muita gente que me deve favores, só estou a puxar cordelinhos. entretanto, a tradutora tinha ido à cozinha servir-se de um café e veio sentar-se na cama para saber da amiga, bem consciente do que o protector lhe fizera há pouco e ambos, cada vez mais, se detestavam.

(continua)

25.02.21

Mil Caras

 

(conto #11)

as lágrimas escorrem-lhe pelo rosto incontroláveis e ela diz, por favor traz-me a minha mala de domicílios, preciso de um calmante. com medo que as convulsões regressem ele corre a atender-lhe o pedido e, com a pressa, acaba por acordar a tradutora. raios, pensa com os seus botões, esta é mais um problema! podia dormir mais um pouco e deixar-me sossegado. antes que ela desperte totalmente, célere pressiona-lhe o ponto de relaxamento e faz com que ela perca os sentidos. pelo menos tem mais uma hora de sossego. a enfermeira precisa dele e esta americana irrita-o. quando regressa ao quarto a amiga tenta sufocar o riso, impressão minha ou tu acabaste de pôr a tradutora a dormir? ele pisca-lhe o olho, feliz por a ver ganhar ânimo. toma o calmante, diz apressado. preciso de dizer-te quem ela é, começa a enfermeira, mas ele retorque: ela disse-me. aquela exclamação sobre os códigos não me passou despercebida.

(continua)

24.02.21

Mil Caras

 

(conto #10)

o protector acorda e silenciosamente prepara o pequeno-almoço num tabuleiro para levar à enfermeira. a casa cheira a café acabado de fazer. descalço dirige-se até ao quarto da sua protegida e acorda-a de mansinho. tenta falar, diz-lhe, para ter a certeza que não vais vomitar o pequeno-almoço. ela diz: bom dia, amigo. e sorri. o sono profundo que o sedativo lhe proporcionou teve um efeito calmante. a enfermeira só não consegue conter as lágrimas. já falamos, quando a tradutora acordar. precisas de reforçar o corpo, toma o pequeno-almoço, sossega-a o protector. ajuda-a a sentar-se na cama, colocando almofadas a servir de apoio e senta-se de lado a vê-la comer. depois de se certificar que ela está a recuperar as forças, vai pôr lenha na lareira. a tradutora ressona baixinho, divertido regressa para o quarto da enfermeira. queres comer mais alguma coisa, pergunta-lhe. as lágrimas escorrem-lhe pelo rosto incontroláveis e ela diz, por favor traz-me a minha mala de domicílios, preciso de um calmante. com medo que as convulsões regressem ele corre a atender-lhe o pedido e, com a pressa, acaba por acordar a tradutora.

(continua)

23.02.21

Mil Caras

 

(conto #9)

mas afinal és espia ou não? pergunta desconfiado. era! exclama a tradutora. até ser acusada de traidora pelo meu país. a partir daí sou uma mulher a tentar ser livre. o protector cofia a barba, descalça-se e começa a andar em círculos pela casa. ela descalça-se e regressa ao aconchego da lareira. há que dar tempo, afinal este homem tem a sua vida nas mãos. vai fazendo exercícios de respiração para se manter calma, a espera pode ser longa. o protector decide: vamos esperar que a enfermeira acorde, para termos esta conversa. deita-se no sofá e adormece de exaustão. com um sorriso divertido nos olhos, a tradutora abre o livro que estava a ler e mantém a lareira acesa. gostava de ter sido gata. a noite chega de mansinho e também ela sucumbe ao sono, enroscada na poltrona. só há brasas quando amanhece. a luz do dia entra pelas janelas da sala. o protector acorda e silenciosamente prepara o pequeno-almoço num tabuleiro para levar à enfermeira. a casa cheira a café acabado de fazer.

(continua)

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